OS DESAFIOS DA CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL
A sustentabilidade depende além de conscientização, exemplo, portanto, é necessário apresentarmos as rotas de esperança e do bom senso. Temas como qualidade do ar, gestão dos recursos hídricos, eficiência energética, materiais recicláveis, eco-economia, verde, biodiversidade, terra e cultura da paz podem ser contemplados em nossos projetos. Etapa por etapa, dentro de uma evolução gradativa e inteligente que possa perceber a dimensão das aplicações e seus efeitos no bem-estar, no conforto e no equilíbrio da sociedade, da cidade e do planeta.
Se todos nós já temos consciência da existência de um problema, por que não investir em construções sustentáveis, tendo em vista que a indústria da construção é uma das que produz maior impacto no meio ambiente. Devemos considerar, por exemplo, que 70% da energia consumida nas grandes cidades deve-se aos edifícios e que o Brasil ocupa o 4o. lugar como um dos maiores emissores de CO2, gás causador do efeito estufa.
As pessoas, os consumidores estão se conscientizando sobre a necessidade de contribuir para um mundo melhor, e estão mudando seus hábitos, mesmo que para isso tenham que pagar um pouco mais dentro da perspectiva do curto ou médio prazo. Os investimentos se dão em produtos e serviços de empresas com características intrínsecas verdadeiramente sustentáveis, apoiadas nas perspectivas ambiental, social e econômica.
É preciso transformarmos dificuldades em oportunidades, desafios em ousadia, lacunas técnicas em pontes criativas, lamúrias e desculpas em atitudes responsáveis e corajosas que busquem a superação, o talento, a arte e abandonem o conformismo e o lugar comum.
O povo brasileiro vive a luta diária da sobrevivência com recursos escassos, pouco ou quase nenhum incentivo, dificuldades de toda a ordem, mas ainda assim, se supera e sobrevive dia a dia com uma arte que lhe é peculiar. A criatividade e a inovação correm nas veias, e ainda presenteia todas as adversidades com um sorriso após a curva de cada dia. Sejamos brasileiros, com orgulho e toda a brasilidade que nos é natural, buscando e aflorando o lado positivo da nossa natureza e competência que exporta aviões.
A natureza possui duas formas de mudança: pela evolução natural ou por catástrofes. Vários fatores ocorrem a cada segundo provocando mudanças. Portanto, é preciso seguir a natureza e mudar optando pela evolução natural, abraçando a tecnologia disponível e os desafios que esse caminho nos aponta. Quatro são as etapas deste processo: provocar o engajamento das pessoas, medir os progressos ("o que não se mede, não se pode gerenciar"), desenvolver e fortalecer as lideranças, e finalmente transformar.
O alto custo das obras, desperdícios e retrabalhos, estão muito ligados à falta de comunicação entre os profissionais do setor. É preciso investir fortemente no planejamento, na utilização de ferramentas de simulação e realizar diversos estudos para que a obra possa ser sentida e que os problemas possam ser previstos e solucionados na fase de projeto e não no campo. O projeto deve ser pensado e realizado em conjunto por engenheiros e arquitetos, onde todos assumam o compromisso pela busca das soluções técnicas, econômicas e ambientais, além da responsabilidade de realizar uma obra durável e inteligente, por meio da integração e consciência da interdependência de seus diversos atores.
Podemos dizer que o problema é de atitude e coragem para abraçar os desafios de forma que o artista e sua obra possam transcender o sonho original, transformando-o em realidade, superando limites e expectativas. A sustentabilidade verdadeira começa com uma conversa transparente e aberta entre todas as partes, isto é uma declaração de interdependência.
Quando a primeira obra de construção sustentável foi sonhada no Brasil e no mundo, as soluções não estavam disponíveis. Houveram profissionais que selecionaram, qualificaram e desenvolveram parceiros, produtos e soluções que pudessem não somente serem aceitas, mas principalmente, que não se perdesse o princípio básico da engenharia quanto à qualidade, durabilidade e atendimento às normas técnicas.
Inúmeros são os investimentos em retrofits e novas obras no Brasil para a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016, resta ao Brasil a oportunidade de se apresentar ao mundo como um importante ator global na redução das emissões, assumindo uma posição de liderança e inovação criativa apropriando regionalmente o que tem sido pensado hoje mundialmente para as construções sustentáveis.
Práticas de desconstrução sustentável e não demolição, de forma a gerar o mínimo de impacto nos aterros e por conseqüência no meio ambiente, tendo como premissas: a destinação adequada dos resíduos às empresas certificadas, a elaboração de inventário de emissões e a análise prévia dos riscos ambientais, é uma quebra de paradigma. Mas a pergunta virá, ... E quanto eu terei que pagar a mais por isso?
É preciso um esforço inicial grande para buscar a excelência no projeto, as melhores soluções técnicas, o produto certificado e os parceiros qualificados, assim como, é preciso esforço para se exercitar constantemente, para se alimentar de forma saudável, e para as boas práticas sociais, mas quando se torna um hábito e uma questão de princípios, os benefícios são inegáveis.
"Saber fazer, e fazer saber" é uma frase importante no caso das obras verdes ou sustentáveis. É preciso explicar ao usuário ou comprador e sociedade o que foi feito e quais foram as preocupações ambientais e de sustentabilidade do projeto, pois muitas vezes, estas não são perceptíveis. Portanto, Fazer Saber faz parte de um processo de educação, conscientização e valorização de cada etapa desenvolvida para que o pós-uso justifique os investimentos realizados.
A disseminação das melhores práticas tem ocorrido de forma gradual, com o aumento da demanda do mercado, a indústria tem se organizado para atender. Vamos liderar e não reagir a todas essas mudanças, compartilhar os valores da sustentabilidade e garantir que as edificações não nasçam obsoletas. Entretanto, antes de tudo é preciso cuidar da sustentabilidade pessoal, porque se as pessoas não estiverem bem, elas não irão querer cuidar do planeta.
Talvez a terra possa nos ensinar que estando 'morta' é preciso provar que está viva. Portanto, mentes, braços, almas e corações à obra, não como uma paixão volátil, mas como um amor inteiro e verdadeiro, onde se entrelaçam as almas e os sonhos, pois sabemos que a melhor maneira de prever o futuro é projetá-lo.
Enga. Cristiane Silveira de Lacerda - Diretora ECOCONSTRUCT BRAZIL
Perfil
Quem sou eu
Diretora Geral da EcoConstruct Brazil, formada em Engenharia Civil pela Universidade FUMEC, especializada em Urbanismo pela UFMG, com MBA em Marketing Internacional pela FGV e Mestrado em Relações Internacionais para a América Latina pela Ohio University - EUA. Apaixonada por tudo o que diz respeito à construção sustentável e inteligência construtiva.
Interesses
- Parcerias Comerciais. Representação e Comercialização de Produtos Ecológicos para a Construção Civil. Pesquisa para o desenvolvimento de materiais de construção sustentáveis.